quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Capítulo 7 - Descoberto




Sam era alto, tinha os cabelos castanhos encaracolados, olhos azuis emoldurados por óculos aro de tartaruga. Pra disfarçar o clima pesado entre ele e Katleen, ele fingiu não notar tanto a presença dela no recinto e veio se apresentar
- Josh, é um prazer conhecê-lo, sou Sam Squalor , irei trabalhar com a fotografia do filme, será um dos pontos fortes, acredito eu! – ele sorriu
-é um prazer conhecê-lo – cumprimentei-o educadamente
Quando Katleen ouviu seu tom bem educado não pôde deixar de dar um muxoxo de descaso. Pra não piorar mais ainda as coisas, resolvi mudar rapidamente o rumo da conversa,afinal, era o grande dia da coletiva de imprensa
-Hey Sam, eu adoro essa parte nos filmes! A gente precisa conversar um pouco antes! Será que você pode me dar uma dica de como vai utilizar o foco do filme? – tentei puxar assunto com Sam para aliviar a tensão, enquanto Katleen saía de fininho, nervosa, parecendo fazer um esforço enorme para não puxar a cabeleira encaracolada de Sam.
- Então é isso cara, teremos uma fotografia espetacular coroada pelos efeitos solares do Brasil, você sabia que é um dos países mais iluminados do mundo? – Sam tagarelava a todo instante sobre quais técnicas estava pensando em utilizar enquanto esperava a equipe para nos arrumar e nos conduzir ao grande salão espelhado do hotel, onde éramos esperados pela imprensa.
Às três da tarde, o salão estava todo arrumado para receber os fotógrafos e os repórteres. Sérgio corria de um lado para outro. Ryan havia sido convocado para conter qualquer tumulto que pudesse acontecer. Pessoalmente eu não entendiam do que eles poderiam estar falando. A assessora, Alice, foi a responsável pelo cerimonial e de conduzir os membros da equipe para o palco e receber as perguntas dos jornalistas. Eu aguardava dentro de uma salinha ser chamado por ela, enquanto ela anunciava os primeiros a se sentar na bancada. Eu ouvia tudo pelos fones de ouvido com a tradução instantânea.
- Boa tarde! É um prazer recebê-los aqui no hotel Luzeiros para a primeira coletiva de imprensa do filme Corações do Asfalto, com o apoio da Globo Filmes e Columbia trystar, meu nome é Alice Silveira e eu gostaria de chamar a idealizadora desse projeto, a roteirista e tradutora oficial da equipe, a senhorita Katleen Turner!
Seguiu-se uma longa salva de palmas, Katleen olhou para mim com um sorriso nervoso, e caminhou até a porta, a abriu e foi para seu lugar na bancada. No momento em que eu ouvi a porta abrir, ouvi um barulho de uma multidão aplaudindo, será que tinha tanta gente assim no hotel?
Alice foi chamando as pessoas da equipe, chamou Sam, que me deu uma piscadela quando passou pela porta. Quando ela chamou o próximo nome, eu congelei, era ele.
Fernando Meirelles havia acabado de chegar na sala, passou por mim e me cumprimentou rapidamente por que acabava de ser chamado. A multidão aplaudiu e ele se sentou entre Sam e Katleen. Um dos meus diretores favoritos que eu não conhecia passou por mim e apertou minha mão, e eu aqui com essa cara de bestificado. Essas coisas só acontecem comigo mesmo.
-Agora, uma informação que talvez vocês não saibam – disse Alice com um tom divertido enquanto eu podia ouvir a multidão de repórteres disparar pra poder acompanhar tudo minuciosamente – Alguns atores já estão aqui e irão participar da coletiva! Temos a honra de chamar aqui ao palco, pela primeira vez no Brasil o ator Josh Hutcherson!
Respirei fundo, tentei conter o nervosismo e entrei. Na hora que eu pisei no palco, meu queixo caiu.
Havia uma multidão lá fora, centenas de pessoas, os repórteres, fãs gritando –e muito! – com cartazes e muitos fotógrafos. Tem certeza que ninguém sabia que eu tava no Brasil?
     Depois de mim, entraram Wagner Moura e Alice Braga, muito aplaudidos pela multidão. Fiquei um pouco envergonhado de ser um dos poucos que não falava português na equipe e, por nossa causa, a coletiva precisar de tradução simultânea, eu iria ajudar no máximo que pudesse.

Fernando tomou a palavra falando um pouco sobre como resolveu entrar no projeto, como o conheceu através do trabalho de Katleen que já tinha coordenado roteiros com Wagner e Alice.
- A história se passa na época da efervescência da ditadura militar brasileira em sua maior parte, nosso protagonista é Harry Simons que será interpretado pelo Josh – Fernando deu um breve aceno pra mim – e ele vai em busca de suas origens fazendo uma viagem pelo Brasil daquela época. Wagner e Alice interpretam um casal que ele conhece na viagem. Wagner e Alice já trabalharam juntos em “Cidade Baixa”
Os repórteres seguiram fazendo perguntas de como e onde o filme seria rodado, de quando começariam as filmagens e aquelas coisas usuais. Para mim, perguntaram o que eu estava achando do Brasil. Respondi que eu estava ali há pouco tempo – mentira! – e que ainda estava conhecendo os lugares. Que eu estava impressionado com os fãs brasileiros  *gritos histéricos da multidão* e que gostaria de ficar tempo o suficiente para compartilhar essa troca de experiência com os fãs.
Tudo seguia tranquilo até que alguém perguntou sobre a outra protagonista, a que seria meu par romântico no filme, eu ainda não estava pensando em quem contracenaria comigo,é verdade..
- A ideia inicial era de chamar a atriz Saiorse Ronan para interpretar Lauren, mas houve um contratempo com a agenda da atriz, de modo que agora a vaga ainda está para ser preenchida – revelou Katleen
Nesse momento, eu só pensava em uma possibilidade, e ela já era atriz..

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Capítulo 6 - Katleen




Meu tempo de encontros tranquilos com a Letícia havia se esgotado. Só me lembro de ter sido levado para uma sala no andar térreo e receber as ordens de me arrumar para a coletiva de imprensa sem deixar o hotel. Passei pela maquiagem e o figurinista contratado que chefiava a equipe de caracterização do filme. As horas se passavam e nada de surgir oportunidade para pelo ao menos mandar uma sms pra ela, mas seria dar bandeira demais. Sem saber o que fazer com aquelas horas de tédio, comecei a contar quantos quadradinhos havia no teto e sacudir para o alto uma bolinha que alguém havia esquecido no canto da mesa.
Depois de mais ou menos uns trinta minutos, alguém entrou na sala batendo a porta com cara de poucos amigos. Uma garota ruiva que usava um chapéu e blazer azul escuro, uns óculos de aro e pequenas botas pretas. Olhou brevemente pra mim e se apresentou
-Me chamo Katleen, faço parte da equipe – disse ela se sentando na mesinha que dava pra varanda da sala que eu estava. Abriu a bolsa e começou a procurar alguma coisa lá dentro, puxou uma carteira de cigarros
-Se importa? Quando estou nervosa não consigo parar – me perguntou com um ar cansado.
-Claro que não, fique à vontade! Só não acho muito saudável, mas,você quem sabe!- exclamei
Ela sorriu e acendeu o cigarro, se afastou para a varanda pra fumaça do cigarro não pegar em mim. Depois de alguns minutos em silêncio, então disse de repente
-Hoje não é o meu dia..
Pensei que não era uma boa hora pra importuná-la com algum assunto, mas minha vontade de ajudar era maior
-Posso ajudar em alguma coisa? – fui até a varanda onde ela estava encostada e fiquei junto dela observando a maravilhosa vista para o mar do hotel. Barcos saiam ao longe
-Não, infelizmente o meu caso é complicado, eu sou uma grande imbecil – eu percebi a amargura nas suas palavras.
-Bem, dizem por aí que fazemos algumas burradas na vida, mas a maior delas é não compartilhar os problemas... já ouvi falar muito de você.. não é você a famosa roteirista desse filme? E também, não vai ser a minha professora de português?
Ela sorriu um pouco e pareceu desmanchar a cara de tristeza
-Bem que me avisaram que você era uma “gracinha” Sr. Josh Hutcherson – ela fez um gesto de apertar minhas bochechas
-Também não precisa me ofender – gracegei – fala sério, pode contar,eu gostaria de ajudar. Tentei ser o mais atencioso possível, de alguma maneira, eu sentia por ela.
Ela olhou,pensou.. viu que não tinha jeito e acabou falando
-Olha, se você contar pra alguém eu te mato! Ah,eu ainda vou me arrepender por isso – suspirou. Acontece que eu.. bem, eu tive um envolvimento com Sam, o diretor de fotografia do filme uns meses atrás,mas acontece que ele não me contou que ele era noivo, e eu um belo dia chego no coquetel de uma coletiva de imprensa e escuto da boca dos jornalistas que o casamento dele com uma nojentinha chamada Hilda  estava marcado.
-Woow, por essa eu não esperava – foi o que eu pude dizer – eu sinto muito
Ela sorriu tristemente me encarando, realmente era muito bonita com aquela cabeleira ruiva rugindo atrás dela. Deveria ter uns vinte cinco anos, ou menos
-O pior ainda está por vir – ela deu uma baforada no que restou do cigarro e o afundou em um cinzeiro no parapeito da janela
- Não vai me dizer que.. –finalmente a minha ficha caiu
-Sim, o desgraçado foi escalado para esse filme, tudo culpa do nosso querido diretor Fernando Meirelles, que só sabe trabalhar com ele. Sam convenientemente é um dos melhores diretores de fotografia disponíveis e Fernando não o larga um segundo. Vou ter que engolir meu orgulho e trabalhar com ele. Não consigo nem o ver depois de tudo o que a gente passou..
Pelo que eu tinha ouvido falar de Katleen ela era uma espécie de talento nato do cinema, considerada uma das mais jovens roteiristas de sucesso, era respeitada e todos a adimiravam. Eu imaginava alguém mais mimada, arrogante e muito distante das pessoas. Mas o que eu via na minha frente era alguém verdadeira, real e pé no chão. Fiquei impressionado como me identifiquei imediatamente com ela, são as chamadas pessoas imãs, fáceis de aproximar, difíceis de separar.
A mão de Katleen estava sobre a borda da varanda, então eu peguei na mão dela e usei toda a minha capacidade de consolar as pessoas. Eu estava sem armas pra consolá-la, o caso era tenso, mas de qualquer maneira tentei
-Katleen, olha, sinto muito a gente ter se conhecido assim.. não sou a melhor pessoa do mundo para dar conselhos, pelo menos é o que eu acho.. mas se eu fosse você tentaria conviver com a situação mostrando que não aconteceu nada. Talvez ele espere que você reaja de maneira diferente, que se importe, tenta surpreendê-lo tá?
- Vai ser difícil, mas o mínimo que eu posso fazer é tentar não é? Eu ainda mato o Fernando, mas ele é um gênio e eu o amo também,fazer o quê..
-Então senta aqui e me conta, como é trabalhar com o Fernando Meirelles?
Sentamos na mesa da sala e conversamos,conversamos.. ela me contou o que fazia, quais os planos para o filme. Falamos sobre filmes,cinema, música. Ela já havia virado a minha melhor amiga no ato.
-Sabe, eu nunca imaginei que você fosse tão sabe-tudo! – nós dois rimos
Mas aí eu lembrei da Letícia, claro, não tinha esquecido dela o dia todo. Estava explodindo de vontade pra contar. Quando resolvi que deveria me abrir com alguém sobre isso, e era justo com a Katleen, já que ela tinha me contado sobre os seus problemas amorosos, uma pessoa interrompeu o que eu estava falando ao entrar na sala
- Aqui é a sala onde eles... – o homem parou de falar e se deparou com Katleen sentada no sofá – Katleen? Você?
Katleen ficou branca que nem papel e senti ela gelar ao meu lado.


quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Capítulo 5 - Confissões




A noite caiu rápido, mas pra falar a verdade, eu não percebi o tempo passar. Ficamos o resto da tarde namorando na sua varanda. Resolvemos abrir o jogo um com o outro de uma vez por todas. Eu confessei que ela havia me enfeitiçado na hora, com a sua dança e seu olhar, e tudo não passava de uma enorme conhecidência eu vir parar justamente aqui e tê-la visto naquele vídeo. Ela disse que não acreditava em conhecidencia, mas no puro destino.
-Eu já te conhecia, só você que não sabia – ela deu risada enquanto ajeitava o cabelo
- Como assim eu não sabia? – falei recostado à grande da varanda de seu quarto
-Minha companhia de teatro, o Marachá, já havia se apresentado em uma festa que você foi. Só que você saiu um pouco antes da gente entrar, muitas amigas falaram de você, mas eu não acreditei que você fosse tudo aquilo o que elas disseram pra mim – ela riu, eu fiz cara de falso chateado e nós dois rimos – eu confesso, comecei a pesquisar sobre você depois que assisti Jogos Vorazes com Jéssica. Eu não sei.. acho que pensamos iguais sobre várias coisas.
- Sobre o quê por exemplo?- perguntei
-Ah, sobre quase tudo. Eu li sobre a “Straight, but not narrow” achei sua atitude admirável, não é todo mundo que tem essa coragem, esse empenho, sabe? É como se a gente não pudesse salvar o mundo, mas salvar alguém com nossa atitude, que significa o mundo para uma pessoa só. É muito gratificante.
-Como assim,você também tem uma ONG?
-Ensino teatro a crianças pobres da enseada. Eu sei que pode parecer horrivelmente clichê, e eu não quero ser vista como uma Madre Teresa,mas.. pra mim significa tudo. Estar com elas realmente me permite ser quem eu sou, elas são encantadoras.
Ela foi até a sua estante e retirou um álbum de fotos e me mostrou. Várias crianças usando fantasias coloridas sorriam, algumas abraçadas com ela, as menorzinhas agarradas a sua saia. Pareciam as crianças mais felizes do mundo.
De repente eu me lembrei da sua irmã,Jéssica e não pude conter o riso com um pensamento que passou pela minha cabeça.
-Do que você tá rindo? –ela estranhou
- Cara, imagina qual vai ser a reação da sua irmã quando descobrir que a gente tá junto! Eu acho que ela vai ficar zangada com a gente,não sei..
Uma sombra passou pelo rosto dela, de repente ela estava preocupada.
- Josh, ninguém pode saber! Eu não sei o que fariam se a imprensa descobrisse. Não podemos contar nem para Jéssica por hora. Eu não sei, é tudo muito novo pra mim..
Assenti com a cabeça. Ela tinha razão. A puxei mais para perto de mim,ela ficou recostada em meu peito enquanto eu fazia carinho nos seus cabelos
-Ei, vem cá, não fique assim! Ninguém vai descobrir, não vou contar a ninguém, somos só nós dois..
-contra o mundo – ela completou.
Olhei para o céu e me assustei, já era tarde e eu tinha que voltar para o hotel
- Já é tarde,eu preciso ir – falei sem querem me separar dela
Ela pegou meu rosto em suas mãos, ficou olhando pra mim de um jeito apaixonado – promete que vai voltar pra me ver?
-Como é que eu posso ficar longe de você? Você me enfeitiçou.. eu não posso ir a lugar algum! – passei os braços em volta dela e a beijei.

Voltei para o hotel às sete horas. As pessoas da equipe do filme não paravam de circular no hall de entrada com equipamentos e outros preparativos para a grande coletiva de imprensa que teríamos em dois dias. Quando fui pegar o elevador, esbarrei com Sérgio.

-Finalmente te achei! Josh eu me esqueci de te apresentar a Katleen, ela acabou de chegar de viagem, chegou quando você tava fora.
Fiquei aliviado por ele não perguntar o que eu tinha feito tanto tempo na casa de Letícia. Uma das qualidades de Sérgio, deixar as pessoas bem à vontade. Já tínhamos nos tornado amigos, mas apesar de tudo, ainda estávamos na mesma equipe do filme. Ele havia facilitado uma vez, mas não significava que isso ia ser rotina.
-Legal! Estou ansioso para aprender português e estudar o roteiro! Onde ela está?- apertei o botão da cobertura louco para chegar na suíte e tomar um banho
-Ela chegou e foi tomar um drinque no minibar e dar um mergulho na piscina, estava voltando de lá agora, depois vou dizer que você chegou
-Ok,obrigado
O elevador chegou e eu fui para a suíte. Tomei um longo banho,me senti renovado e fui ver TV. Estava cansado, mas não consegui dormir, então liguei o notebook e comecei a ficar navegando sem rumo. Connor entrou no serviço de mensagens  e eu contei como estava indo a viagem, mas sem mencionar Letícia. Disse que mamãe estava com saudades e me contou as novidades.  Seu tive havia vencido a partida contra a seleção visitante no baseball, ele estava radiante.
Me bateu uma saudade de casa.. mas eu não ia desistir agora, o filme prometia ser um sucesso.
Acordei cedo no dia seguinte, e o primeiro pensamento foi tentar ver Letícia. Me vesti com cuidado e desci. A coordenadora de elenco do filme veio falar comigo
-Bom dia senhor Hutcherson, sou Helena, a coordenadora de elenco e chefe responsável por colocar ordem no pessoal,por assim dizer – disse com autoridade
-Muito prazer Helena, eu estava indo dar uma volta para achar o Sérgio – tentei despistar
-Receio que isso não será possível,senhor Hutcherson. Houve uma mudança de planos e o diretor está vindo imediatamente para cá, a coletiva de imprensa será realizada esta tarde.


Nota: Hotel do Josh no Maranhão http://media-cdn.tripadvisor.com/media/photo-s/02/51/c2/8f/hotel-luzeiros-sao-luis.jpg

Capítulo 4 - Disfarce




Letícia subiu as escadas rapidamente para pegar sua bolsa enquanto eu a esperava no hall de entrada. Próximo ao corredor, havia dois quartos, um quarto de hóspede e uma portinha com uma plaquinha de madeira,onde se lia “quarto da Jéssica”,estava entreaberta e pela brecha da porta havia algo que me despertou atenção e eu não pude ignorar, resolvi espiar e fui até a porta. Esse é um dos meus grandes defeitos, sou curioso demais.
Quando abri a pequena porta,me deparei com a parede forrada com pôsteres e mais pôsteres de jogos vorazes. Havia fotos da Jennifer como Katniss nas mais diversas poses, e do lado esquerdo.. fotos minhas caracterizado de Peeta. E o nome “Josh” escrito várias vezes de um lado e de outro. Uma pequena cama com colcha colorida, mais bonecas de pano, e todos os objetos que haveria em um tradicional quarto de uma garotinha adolescente. De repente a porta se abriu bruscamente e Letícia entrou no quarto, tinha uma expressão de perplexidade
-Ai meu Deus! Não era pra você ter visto todos estes pôsteres seus! – era a primeira vez que eu via aquele rosto tão seguro de si corando. Tive que dar risada
- Ué, porque? Fico muito feliz em saber que ela gosta tanto assim de mim e do meu trabalho! Onde sua irmã está? Queria conhecê-la
-Ai,não sei, nunca imaginei que você pudesse estar aqui, parado olhando pra isso, é muito surreal, você não tem noção! – ela acabou rindo também. Minha irmã foi visitar nosso pai em outra cidade, ela só volta na semana que vem. Ela provavelmente surtaria se te conhecesse.
-Acha que ela contaria pra alguém que eu estou aqui?
-Bem, eu não tenho certeza, Jéssica tem apenas 12 anos e é uma cabeçinha de vento, ainda está na idade de querer contar tudo pras amigas, essas coisas de pré-adolescente. Ela é assim,mas eu amo aquela pestinha!

- Bem, vão anunciar que eu estou no Brasil em breve, o diretor está vindo fazer uma coletiva de imprensa, em breve vão anunciar e todo mundo vai pirar quando souber que eu estou aqui, segundo Sérgio, as fãs brasileiras são as mais entusiasmadas
-É elas são entusiasmadas mesmo – notei seu tom um pouco amargurado.
-Como assim?
- É sempre a mesma coisa – suspirou. Milhares de criaturas se esgoelando na porta dos hotéis, desesperadas pelos seus “ídolos” – ela fez aspas com as mãos. Eles mudam todo verão.
-E.. eu serei substituído no próximo verão? – me aproximei dela
-Hum.. provavelmente. – ela pensou, mas pareceu não ter certeza
Fui me aproximando lentamente e procurei cercá-la, ela não hesitou, continuou olhando nos meus olhos com firmeza.
- E pra você, eu serei substituível?
Dizem que eu sou sedutor quando quero, mas para mim acabo sendo mais uma imitação de mini-galã meio ridícula. Não sei exatamente o que eu senti, agi por impulso, pude ouvir a respiração hesitante dela. Aquilo apenas aguçava ainda mais a minha vontade de estar tão perto dela. Ela baixou os olhos e respondeu quase com um sussurro.
-Não.. você é mais do que..
-Do que o quê? – ela estava bem próxima agora..
Não pude saber o que era, alguém bateu na porta e quebrou o momento. Ela correu para atender, a saia esvoaçando atrás. Ouvi alguém falar,mas não entedi, provavelmente em português. Essas aulas de português precisam começar imediatamente, pensei amargurado.
-Eu não acredito! – exclamou ela feliz. A caravana de rua vem aí ladeira abaixo! Vamos assistir eles passarem! São o bloco mais tradicional de São Luíz! Vem!
-Eu não posso! Vou ser reconhecido! – disse chateado
- Bobo! Esqueceu que eu faço parte de uma companhia de teatro? Tenho um baú inteiro de fantasia no meu quarto, hum... topa se disfarçar pra cair na farra, Sr. Josh Hutcherson? –disse daquele jeito faceiro me cortejando
-Mas é claro! Não perderia isso por nada!
Ela fuçou dentro do baú e achou uma roupa cheia de panos coloridos, e uma máscara que ocultava bastante a minha aparência. A cara de um boneco engraçado chorando com uma lágrima pendurada.. o que será que significava?
Paramos um instante no hall de entrada e a música já começava a ecoar vindo do começo da ladeira. Aos poucos, o que parecia o som de um batalhão se movendo depressa nos alcançou e saímos de mãos dadas na multidão. As pessoas dançavam entusiasmadas e não pareciam realmente me reconhecer, o que era ótimo. Por um segundo, me passou pela cabeça que eu realmente fazia parte de tudo aquilo. Havia uma emoção em tudo e eu reconhecia. Liberdade,simplesmente. Estar livre e dançar ao som da música!
De repente, o som de trompetes se sobrepôs à bagunça geral. Todos se afastaram e uma roda de garotas se formou. Todos pararam para assistir. Letícia estava lá, bem no meio da roda. Aquele mesmo som contagiante de tambores marcando o passo e palmas da multidão fez as garotas girarem as saias. Era igual o que eu havia visto no vídeo. Não me contive e comecei a bater palmas também. tudo era extremamente hipnótico, porém, não havia multidão, não havia garotas ao redor, apenas uma.
Letícia voava em movimentos, sempre dançando de maneira sensual e hipnótica, ela conseguiu me encontrar na multidão e olhava para mim, me chamando com seus olhos, suave e depressa ao mesmo tempo. Não sei por quanto tempo fiquei observando ela dançar na multidão.. observando.. observando...
De repente ela veio na minha direção e me puxou para dentro da roda! Que garota atrevida ela era! Tentei impedir, mas quando vi já estava junto com ela! Ela pegou minhas mãos e começamos a girar, a girar, enquanto ríamos como se estivéssemos malucos! Aquilo era bom demais!
O bloco ia passando e algumas pessoas iam ficando para trás ou se afastando. Olhei para o céu, que de repente começou a nublar.
- Acho que é a primeira vez que vejo o céu brasileiro nublar,será que vai chover? – perguntei
Não logo falei isso, começou a cair uma neblina e aos poucos a chuva começou. As pessoas que já estavam animadas, ficaram mais animadas ainda correndo na chuva e pulando ao som da música.
Tínhamos ficado um bom pedaço para trás, estávamos na metade da alameda azul, a chuva caindo esfriando um pouco o clima tão quente.
-Nossa! Deve ter acontecido algo muito especial pra chover! Esse não é o país de tanto sol? – gracejei
- você ainda não sabe né? – ela parou retirando a minha máscara, revelando meu rosto todo molhado com pingos de chuva
-O que eu não sei? – franzi as sobrancelhas
- É que.. – ela começou a se aproximar novamente – você é coisa especial que aconteceu.
Registrei o momento em que ela passou a mão pelas minhas costas,  senti o seu delicioso perfume e eu a puxei para um beijo, o nosso primeiro beijo naquela tarde chuvosa e festiva do Maranhão.



Nota: A dança da Letícia chama-se "Tambor de crioula" dá pra imaginar um pouco pela imagem: http://www.cartacapital.com.br/wp-content/uploads/2011/01/Tambor1x_edit.jpg

Fantasia do Josh: Pierrot



Capítulo 3 - Enfim,a garota misteriosa




Não me lembro como, mas acordei com o sol alto batendo do lado de uma janela,alta e marrom. Estava em um quarto de um dos sobrados que tinha visto no dia anterior. Olhando ao redor, reparei que estava em um quarto amplo, com um pesado guarda-roupa de mogno e piso de linóleo. Havia uma penteadeira com perfumes, escovas e objetos femininos, no canto esquerdo havia malas e uma coleção de livros e bonecas penduradas em uma prateleira. A enorme cama em que eu estava deitado, ainda de casaco tinha uma colcha colorida. Meu boné pendia molemente ao lado dos meus cabelos. Alguém havia tirado minhas meia e meus sapatos.
Desci as pesadas escadas de madeira e fui para o Hall entre uma sala de estar apertadinha e um corredor que dava para outros cômodos da casa. Tudo ali seguia a mesma decoração tão comum do lugar. Muitos objetos com renda,flores e peças coloridas que contrastavam com o escuro da madeira das portas e janelas. Andei por entre as estantes de livros da sala e cheguei dando uma espiada no resto da casa, estava vazia.
Fiquei intrigado, como eu viera parar ali? Sempre tive ressaca, mas sempre sabia voltar pra casa, ou parava em algum lugar conhecido. Nunca me ocorreu de acordar assim em um lugar estranho,parecia até coisa de outro mundo!
Afastei um pouco as traves da janela da sala e espiei para a rua. A casa ficava na parte baixa de uma ladeira e dava para a rua. Poucas pessoas transitavam a essa hora da manhã, mulheres passando com enormes trouxas de roupa, crianças alegres as acompanhando e senhores idosos. Por um momento eu desviei o olhar do alto da ladeira e olhei novamente,o que eu vi me deixou de queixo caído.
A garota do vídeo estava inexplicavelmente vindo descendo a ladeira em minha direção. Ela vestia saia e blusas brancas, delicados chinelos de dedo e trazia um cesta com comida, tinha flores nos cabelos fartos. Ao me ver,ela abriu um enorme sorriso e foi falando de maneira apressada
-Meu Deus do céu! Você acordou e eu não estava em casa! Me desculpa! Meu nome é Letícia – disse segurando a cesta com a outra mão vindo me cumprimentar.
- Josh Hutcherson, eu não sei se você já ouviu falar de mim - eu disse num tom meio sarcástico divertido
-Já sim, eu adoro Jogos Vorazes, li todas as noites para minha irmã mais nova, ela não está aqui,foi ao outro bairro visitar nosso pai, de modo que eu fiquei sozinha em casa, já que todos foram ver o que está se passando do outro lado da cidade, estão gravando um filme... é o que você está fazendo aqui não é?
- é sim,estava conhecendo o elenco antes de.. – fiquei meio constrangido,mas resolvi falar – beber além da conta
Pude ver a sombra de um sorriso passar pelo seu rosto, ela me encarou antes de responder
- agora me diga,o que um ator do seu porte estava fazendo em um bar no meio do nada com dois malucos que te deixaram sozinho? Só o simples fato de você estar aqui no Brasil já é uma coisa espantosa! Não é mesmo?
-É eu sei.. é uma longa história, olha,se você não se importa,é melhor eu entrar porque ainda não sabem que eu estou no Brasil e isso pode interferir um pouco no esquema do filme,eu preciso ligar... – aí me lembrei do roubo – aai,essa não! Eu to ferrado! Roubaram minha carteira e meu celular! Estou perdido! Vão me achar,daqui a pouco a imprensa vai tá aqui e..
-Procurando por isso aqui? – ela mostrou a carteira e o celular e eu fiquei assombrado
-COMO VOCÊ CONSEGUIU RECUPERAR ISSO? – quase gritei
-Digamos que eu tenho um amigo que não possui boas referências, e ele me deve algumas. Sinto muito pelos seus dólares, ele disse que me devolveria a carteira e o celular,mas os dólares ele não conseguiu resistir – falou em tom de quem sentia mesmo.
-será que eles descofiaram de quem eu sou? – perguntei atônito
-Não, o menino que roubou sua carteira não fala inglês, e tenho certeza que não fica por aí vendo filmes, sorte sua que meu amigo é mais rápido que esses ratinhos ladrões. – eu estava simplesmente estupefato. Nunca vira uma pessoa tão certa de si e tão senhora da situação. Surpresa definia minhas reações.
- Como você consegue saber de tudo? E além disso, consegue fazer tudo? – eu quis saber
Ela deu uma risada breve, começou a caminhar pela cozinha distribuindo as coisas que trouxe na cesta sobre a mesa. Frutas, pães, bolos e outras coisas que eu não conhecia
- Eu não sei de tudo! Eu apenas conheço muitas pessoas, faço amizade,ora essa? Estou morando aqui há algum tempo, já estou acostumada com essas coisas. Todos conhecem o grupo de dança e teatro do qual faço parte.
Tomei café da manhã enquanto ela me explicava sobre o grupo e todas as peças que havia realizado. Ela conhecia parte da equipe técnica do filme, por isso havia me achado ali e disse que foi a coisa mais estranha da vida dela,ver um ator que ela havia visto no cinema e que era o grande ídolo de sua irmã deitado naquela calçada aquela hora da noite desacordado.
Já estava imaginando onde eu poderia enfiar minha cara para não ser visto de tanta vergonha, quando me lembrei de que ninguém sabia onde eu estava depois do incidente, e deveriam estar mega preocupados. Mas, mais uma vez, ela havia sido rápida e entrou em contato com Sérgio pelo telefone de uma amiga maquiadora conhecida e o avisou
-Você estava dormindo quando eu falei com ele,achei que era melhor não te acordar, porre de cachaça é um dos piores –ela riu- e aí,como está se sentindo?
-Bem,na verdade a dor de cabeça passou um pouco, mas imagino que depois desse café da manhã eu não precise de mais nada pra curar a ressaca.
-você que sabe! Precisa de mais alguma coisa? – ela retirou a louça e foi até a cozinha. Enquanto ela voltava, eu resolvi que era melhor ligar para Sérgio avisando que eu estava bem e estava voltando para o hotel.
- Cara! Eu não acredito que aqueles dois panacas fizeram isso com você,eu sinto muito! Olha,eu prometo que eu irei dar uma bronca neles assim que eu puder – a voz de Sérgio tentava conter o riso, mas tentava soar séria. Olha, eu tenho uma ótima notícia pra você, não pegaram sua carteira e aparentemente ninguém descobriu que você está aqui, vamos tentar guardar segredo até sexta, é quando o Fernando Meirelles chega aqui e está marcada a coletiva de imprensa com os atores e vamos revelar quem está no filme. Tenho que conversar com você, eu acho que quando descobrirem que você está aqui vai brotar gente da terra desesperada pra te ver, então acho que a gente vai ter que ficar despistando um pouco o pessoal,vamos te mandar pra outro lugar por uns dias, mas é temporário cara! Vamos dar um jeito logo!
- Sério cara? Sexta já? Que loucura! Esse filme tá mesmo uma aventura, é uma pena que eu talvez a imprensa fique louca como você diz e que provavelmente vai acontecer. Eu adorei essa cidade, já estava gostando muito daqui,sério.
- é cara, mas esses caras são assim mesmo, temos que tomar conta da sua segurança, essas fãs malucas são fogo! E você ainda não conhece as fãs brasileiras e não sabe o que elas são capazes de fazer! – ele riu
- Eu não sei, to um pouco ansioso pra o que vai acontecer agora... escuta, qual é a minha agenda pra hoje? Cara, eu to quebradaço..
- Fica tranquilo que hoje é só reunião com a equipe de cenografia, demos o dia de folga para o elenco. Wagner moura e a Alice Braga foram fazer uma visita a enseada para as cenas deles. Não precisa se preocupar – ele se lembrou de onde estava e eu pude notar seu tom sarcástico – Por falar nisso eu soube que você foi salvo e está em ótimas mãos..
- Eu estou na casa de uma desconhecida, mas uma bela desconhecida – tentei baixar o tom de voz para que ela não ouvisse – o nome dela é Letícia, você a conhece?
- Não muito, mas já a vi dançando por aí com uma trupe teatral, ela parece ser meio louquinha, mas é uma boa garota. Ela trabalhou um tempo aqui no hotel, pra pagar os estudos eu acho..
-É cara, ela tem uma equipe, ela me falou, mas eu acabei dando o maior vexame bêbado, sei lá não queria pagar mico na frente dela..
- por que não?
-Ela é meio.. meio.. não sei explicar.. mágica
Ouço a risada do outro lado da linha
- Bem,mágica ou não, eu tenho que desligar, apareceu uma coisa aqui que eu tenho que resolver, tente voltar logo para o hotel e sem ser reconhecido ok? Qualquer problema, pode me ligar imediatamente! Até logo!
- Até logo Sérgio! – desliguei o telefone e fiquei um pouco constrangido, pelo visto Letícia havia ouvido um pouco da conversa ao entrar de novo na sala.
-Olha, Letícia, eu sei que.. na verdade eu não sei como te dizer o que eu.. bem, eu quero pedir desculpas pelo que eu devo ter dito enquanto tava meio inconciente, e eu também quero te agradecer sinceramente de ter salvado naquela noite. Me desculpa se eu falei aquelas bobagens.
Ela me olhou por uns segundos me avaliando
- eu não fiquei ofendida, fiquei apenas curiosa – disse com simplicidade
-curiosa? Com o que? – quis saber
-Você falava que queria ver ela dançar, uma menina dançar.. – quem era?
-eu não sei,eu.. – comecei a me lembrar e senti o rosto esquentar
-como você já sabia que eu dançava? – ela me perguntou não acreditando
-honestamente, eu não sei..
Ela sorriu, os olhos misteriosos cheios de calor, chegou perto de mim e me pergontou – quer conhecer a cidade comigo?


*nota: Imaginei a letícia sendo mais ou menos assim : http://www.youtube.com/watch?v=0zTII37T-WI

Capítulo 2 - Surpresas




DUAS SEMANAS DEPOIS
Eu estava aprontando as malas para viajar ao meu mais recente trabalho no Brasil, colocava tudo o que seria estritamente necessário na mala. Minhas camisetas, minhas jaquetas, sapatos, e camisetas regatas. Devido ao clima quente do país, li que lá faz sol quase 360 dias no ano, então achei que era boa ideia levar minha coleção de chapéus também. parei alguns instantes observando a mala em cima da cama e tentando imaginar o que aconteceria na viagem quando minha mãe entrou no quarto trazendo minhas calças recém-passadas para acrescentar na bagagem.
Ao me ver olhando sem rumo pra janela, ela começou com aquele tom que eu já sabia muito bem aonde ia chegar
- ai meu filho! Mal você fica de férias já vai sair de casa de novo! Tem certeza que é uma boa ideia embarcar nesse projeto assim tão de repente?
- mãe! Relaxa! Esse filme promete! Não poderia perder essa oportunidade, já estou louco pra conhecer o Brasil, você sabe que uma parte grande dos meus fãs são brasileiros e eles sempre imploraram pra que eu fosse até lá – tentei acalmá-la
- Eu sei,eu sei... mas sei lá, você não conhece o país direito, não sabe nem a língua que eles falam, pode ser perigoso.. eu.. – ela hesitou por um momento e me olhou nos olhos – ok, me chame de mãe coruja paranoica, mas estou com um pressentimento estranho do que vai acontecer nessa viagem
- Do que a senhora tá falando? Pressentimento? Ah mãe! Isso é bobagem! – a abracei e fiz aquela cara de pidão que eu sei fazer tão bem – eu te prometo, vou ligar todos os dias, não vou deixar de te informar o que está acontecendo, afinal, ainda tem o monstrengo do Connor pra te fazer companhia e você acaba se distraindo, as filmagens vão ser relativamente rápidas, mas vou viajar por um número grande de lugares em uma quantidade de tempo absurdamente pequena, vou ter tanta historia pra contar que você nem imagina! – fiquei de pé em um salto e coloquei meu boné vermelho.
- Só me prometa que vai ter cuidado,está bem? – ela implorou
-Tá, sim, fica sossegada mulher! Já sei me cuidar direitinho! – me preparei para descer e ir dar uma voltinha com o driver, já estava saindo do quarto quando ela falou
- Sua namorada te ligou, você não deixa esse celular ligado, vai acabar perdendo ele qualquer dia desses dentro de uma meia aqui nessa zona que você chama de quarto!
- A Lauren ligou? Pensei que ela tava ocupada demais com as amigas dela curtindo Ibiza – falei com certo amargor, namorava a Lauren há quase dois meses,sempre fomos amigos, mas acreditei que ela significasse algo mais pra mim, no primeiro mês de namoro ela parecia ser a garota mais especial do mundo, mas depois foi ficando complicado, e ela foi ficando distante, sempre tinha compromissos inadiáveis e eu fui ficando em segundo plano e acabou que ficamos um pouco desgastados um com o outro. Não sei dizer bem se terminamos, ela disse que iria viajar pra Ibiza e eu nem liguei, devo estar maluco, ou ser muito otário, não sei..

Na manhã seguinte, Sérgio me esperava no hotel de Village street, com o heliporto que me levaria do Kentucky para o lugar onde pegaríamos o jato da Columbia pictures. Ele quis que a minha chegada ao Brasil fosse a mais discreta possível, tão discreta que praticamente nenhum veículo de notícias ficasse sabendo até a coletiva de imprensa que aconteceria no Rio de Janeiro, mas a grande parte da minha estadia seria em uma cidade pequena do nordeste brasileiro. Nesse meio tempo aproveitei para aprender um pouco sobre a cultura local, meu português era inexistente, e nem adiantava arranhar o espanhol, estava mesmo, como se diz, mais perdido que o Batman!
O jato começou a levantar voo e eu pude avistar as primeiras casinhas e uma bela vista de, eu acho, o que havia escrito no roteiro da viagem, o estado do maranhão achei o nome bem engraçado,então decorei fácil. Uma enorme região cercada de praia passou por mim e eu fiquei encantado. Então estaquei diante da janela do avião. Um enorme deserto de areia branca se erguia diante da paisagem, por um momento fiquei em dúvida se estava no Brasil mesmo ou se estava a caminho do Saara, mas aí reparei que entre cada duna de areia havia umas espécies de piscinas com águas muito azuis.
- Sérgio, cara! Você tá de sacanagem comigo! Me levou pro Saara,aqui não é Brasil coisa nenhuma! – zoei com ele
- Meu caro, conheça os famosos lençóis maranhenses! – ele anunciou orgulhoso.
- me diz uma coisa, já que eu vou ficar aqui e desfrutar dessa vida mansa que é o Brasil em vez de estar trabalhando, oh, espera,esse é o meu trabalho! Seria legal eu aprender um pouco de português, você não acha? – perguntei
- Calma meu amigo! Não vamos deixar você na mão! Você vai se encontrar com a roteirista do projeto, a senhorita Katleen para discutirem juntos sobre o roteiro. A parte administrativa do filme acredita que, se atores e roteiristas trabalharem em equipe é fundamental para o filme, e Katleen prometeu te ajudar com as aulas de português
- Nossa! Que legal! Nunca pensei em trabalhar assim com um roteirista, eles geralmente não são muito receptivos, trabalham em locais separados né?
- Pois é, Katleen é muito legal, você vai gostar dela! Ela disse que está vindo de Fortaleza para cá e vai chegar aqui amanhã. Até lá, você fica livre pra chegar e conhecer um pouco a cidade,está bem? – Sérgio apanhou as mochilas e nos preparamos para aterrissar. O ponto onde o jato pousou era uma grande torre empresarial que contrastava fortemente com as construções ao redor.
Fileiras enormes de casarões históricos e ladeiras se alongavam ao redor da rua, algo me era familiar, mas eu não conseguia dizer o que era.
Entrei no carro da produtora, coloquei o boné sobre o rosto e óculos escuros, do jeito que estava chamava o mínimo atenção possível, era necessário, já que o pessoal do filme não queria que ninguém soubesse que eu já havia chegado ao país, não sei se o plano iria funcionar por muito tempo..
Chegamos ao hotel e eu fiquei mais uma vez de queixo caído! Tinha chegado no Brasil não fazia nem uma hora e já tinha sido surpreendido desde a vista do avião! No alto de uma ladeira que dava pra ver quase toda a cidade, havia uma construção de vidro imponente com várias luzes e janelas, uma piscina e mini-bar, redes espalhadas por um grande espaço, e um andar de cima com cobertura.
Subi pela porta dos fundos. Meu quarto era um com a parte da cobertura. Depois soube que a equipe de filmagem e a produtora haviam ocupado quase 100% dos quartos do hotel. Pelo que foi dito a população local, era para um grande comício político, coisa comum naquela época.
Despejei a mala de roupas no armário e me sentei na cama. Olhei por um momento aquele quarto tão ricamente decorado e simples ao mesmo tempo. Incrível como os brasileiros dão seu toque pessoal a tudo o que fazem.
A vista da janela dava para a praça principal, com alguns casarões no topo, mas ao mesmo tempo não ficava a vista de ninguém, do lado esquerdo havia um conjunto de ladeiras e algumas partes mais isoladas que eu ainda não conhecia da cidade. Ao longe o mar azul a perder de vista. Uma jangada passava perto da costa. Eu já adorava esse lugar.


A noite caiu e eu ainda não havia saído da suíte. Pensei em pegar meu celular para me distrair, mais aí eu poderia dar bandeira twittando alguma coisa, mas não corria esse risco, afinal, twitter não é a minha praia!
Às oito escutei uma batida na porta, era Sérgio que já havia se tornado meu amigo, me contou que adorava esse lugar e tinha crescido aqui e conhecido a sua mulher e tido dois filhos, ele pensava em comprar uma rede de hotéis aqui perto caso se desse bem no emprego da produtora.
- e aí cara! Já se instalou direitinho? Tudo certo? Me desculpa estar invadindo assim seu quarto, mas é que a galera da equipe quer te conhecer, tem uns atores brasileiros aí que querem trocar uma ideia contigo.
- Sério? Então vamo nessa! Ei, mas você vai traduzir o que eu falo pra quem não fala inglês ok? Não quero deixar ninguém encabulado, quero cumprimentar a todos e ainda mais conhecer meus companheiros de elenco, quem são? – quis saber.
- Bem, não sei se você conhece todos, mas lá embaixo tão o Wagner Moura e a Alice Braga, minha nossa senhora! A Alice Braga.. que mulher! – Sérgio já estava se empolgando. Dei risada e desci com ele para cumprimentar a equipe.
Todos foram bastante simpáticos,conheci a enorme equipe técnica e de preparação e todos foram realmente simpáticos. Me senti quase a nona maravilha do mundo, não é a toa o que dizem nas pessoas brasileiras, realmente é verdade, me senti inteiramente à vontade.
- Estes são Carlos e Vítor, membros da equipe de edição e montagem – Sérgio me apresentou dois rapazes quase da minha idade, muito morenos e usando trajes parecidos de rappers. Já gostei deles imediatamente.
- E aí Josh,tudo em cima? Me diz, o que tá achando da cidade cara? Olha.. você não viu nada, a gente tem que te mostrar a noite maranhense de verdade!
Começamos a conversar e eles contaram várias piadas que quase me mataram de rir, tinha gostado daqueles caras. Depois da apresentação, estávamos no terraço do hotel quando eles me convidaram para dar uma volta e conhecer o clima da cidade. Achei que não tinha problema, porque eu tava usando meu casaco, meus óculos e boné e, uma saída rápida não faria ninguém me reconhecer,aliás, já era tarde e as ruas já estavam mais silenciosas. Passamos entre prédios e casas de muros altos, eles comentaram um pouco sobre a vizinhança e as garotas daqui. Achei aquilo muito engraçado, e ao mesmo tempo interessante, eram tão simples que chegava a impressionar,o que não me impressionava naquela viagem?
Chegamos a um pequeno bar onde um senhor muito moreno servia as bebidas, pelo tom, parecia contar uma piada, pois todos riam bastante
- Josh, vem cá, vem tomar uma bebida com a gente! Aposto que você nunca tomou nossa cana heim? – Disse Carlos já pedindo uma dose e se juntando ao grupinho
- Eu não sei, mas já tomei uma tal de cai.. caipi..
-CAIPIRINHA! – Disseram os dois e caindo na gargalhada.
- Caipirinha de gringo é bem fraquinha cara! Tem que conhecer a cana original! – Vitor se sentou no banco e começou a partir limões e distribuí-los entre a gente. Pediu para o barman mais uma dose da bebida, tinha um nome bem chamativo, cachaça, que eu me esforçava pra falar.
As bebidas vinham e vinham, comecei a ficar muito empolgado e a contar histórias, ia me empolgando cada vez mais ia caindo na gargalhada. A bebida descia queimando e era diferente de tudo o que já provei. Foi ficando tarde e os clientes do bar indo embora, estávamos distraídos e mal notamos um grupo de meninos entrando no bar, pareciam estar pedindo alguma coisa. Na conversa com meus novos amigos nem reparei muito neles.
De repente, senti um empurrão nas minhas costas e um garoto passar correndo como se sua vida dependesse disso. Carlos e Vitor gritaram, pareciam estar xingando em português. O menino correu desabalado para um morro próximo e se perdeu naquela escuridão da noite levando minha carteira com meu celular dentro
- Que safado! Não acredito! Josh! Aquele pivete filho da mãe levou sua carteira! Vamos lá pegar ele! Olha, não se preocupe, vamos procurar uma viatura da polícia e vamos atrás dele! – Carlos e Vitor se levantaram de um salto e saíram correndo tentando achar policiais, na pressa de pegar o menino, me deixaram no bar que praticamente estava vazio.
Meu coração começou a bater muito rápido. Junto com a carteira estavam alguns documentos meus,minha habilitação internacional e o meu celular. Não liguei pro dinheiro que tinha, só me liguei que iriam saber em um segundo que eu estava no Brasil e iria estragar todo o trabalho da equipe que batalhou para me ajudar a permanecer anônimo, fora o conteúdo pessoal do meu celular. Xinguei baixinho enquanto minha cabeça dava voltas e eu começava a me sentir muito estranho. A bebida fazia efeito e uma orquestra de baterias batucava a minha cabeça.
O velho que servia no balcão veio falar comigo em português, mas pra variar, eu não entendia nada do que ele disse. Ele repetiu umas três vezes e pelo tom de voz era uma ordem pra mim. Quando ele apontou para os portões percebi que ele iria fechar o bar e tive que sair.
Fiquei lá,parado, sozinho, quase duas da manhã em uma rua deserta em um lugar totalmente desconhecido. Tive que rir da situação. A cachaça deixou tudo anuviado e começou a tirar o meu equilíbrio enquanto eu me apoiava em um muro. Quanto mais eu andava, mais sentia que ia cair. Terminei caindo em uma calçada e deitei completamente imóvel olhando para o céu estrelado. Não conseguia mais pensar, as coisas já não faziam mais sentido e iam fugindo com a consciência.
Foi quando eu observei que alguém ia se aproximando, mas como estava escuro, não dava para ver com nitidez, nem se eu quisesse. A melodiosa voz era de uma mulher, primeiro ela falou algo com tom espantado,depois começou a rir. A risada eram como o revoar de pássaros.
Tudo o que eu consegui ver antes de apagar era uma chuva de cabelos pretos e um perfume doce de fruta na sua roupa antes de ela me erguer nos braços e pronunciar -  Te levo pra casa, seu lindo desmiolado!


nota: Os lençois maranhenses: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgGEP4gwokHeJNl311Xs2T_P_t32ud67XYXjjp1Db8owUi4C3CGC5C2rzKguNecUssjpoc3VfzLLsN_SaGDUNTYijta0G0EXVixFDF2qIdeE9d6SvmhbaP_mlVvULF6S6hAymo4pzuBPZc/s640/lenc3a7c3b3is-maranhenses-top-brasil-turismo.jpg
ruas do maranhão: http://www.marcoaureliodeca.com.br/wp-content/uploads/2011/03/sao-luis-do-maranhao-121.jpg