DUAS
SEMANAS DEPOIS
Eu
estava aprontando as malas para viajar ao meu mais recente trabalho no Brasil,
colocava tudo o que seria estritamente necessário na mala. Minhas camisetas,
minhas jaquetas, sapatos, e camisetas regatas. Devido ao clima quente do país,
li que lá faz sol quase 360 dias no ano, então achei que era boa ideia levar
minha coleção de chapéus também. parei alguns instantes observando a mala em
cima da cama e tentando imaginar o que aconteceria na viagem quando minha mãe
entrou no quarto trazendo minhas calças recém-passadas para acrescentar na
bagagem.
Ao
me ver olhando sem rumo pra janela, ela começou com aquele tom que eu já sabia
muito bem aonde ia chegar
-
ai meu filho! Mal você fica de férias já vai sair de casa de novo! Tem certeza
que é uma boa ideia embarcar nesse projeto assim tão de repente?
-
mãe! Relaxa! Esse filme promete! Não poderia perder essa oportunidade, já estou
louco pra conhecer o Brasil, você sabe que uma parte grande dos meus fãs são
brasileiros e eles sempre imploraram pra que eu fosse até lá – tentei acalmá-la
-
Eu sei,eu sei... mas sei lá, você não conhece o país direito, não sabe nem a
língua que eles falam, pode ser perigoso.. eu.. – ela hesitou por um momento e
me olhou nos olhos – ok, me chame de mãe coruja paranoica, mas estou com um
pressentimento estranho do que vai acontecer nessa viagem
-
Do que a senhora tá falando? Pressentimento? Ah mãe! Isso é bobagem! – a
abracei e fiz aquela cara de pidão que eu sei fazer tão bem – eu te prometo,
vou ligar todos os dias, não vou deixar de te informar o que está acontecendo,
afinal, ainda tem o monstrengo do Connor pra te fazer companhia e você acaba se
distraindo, as filmagens vão ser relativamente rápidas, mas vou viajar por um
número grande de lugares em uma quantidade de tempo absurdamente pequena, vou
ter tanta historia pra contar que você nem imagina! – fiquei de pé em um salto
e coloquei meu boné vermelho.
-
Só me prometa que vai ter cuidado,está bem? – ela implorou
-Tá,
sim, fica sossegada mulher! Já sei me cuidar direitinho! – me preparei para
descer e ir dar uma voltinha com o driver, já estava saindo do quarto quando
ela falou
-
Sua namorada te ligou, você não deixa esse celular ligado, vai acabar perdendo
ele qualquer dia desses dentro de uma meia aqui nessa zona que você chama de
quarto!
-
A Lauren ligou? Pensei que ela tava ocupada demais com as amigas dela curtindo
Ibiza – falei com certo amargor, namorava a Lauren há quase dois meses,sempre
fomos amigos, mas acreditei que ela significasse algo mais pra mim, no primeiro
mês de namoro ela parecia ser a garota mais especial do mundo, mas depois foi
ficando complicado, e ela foi ficando distante, sempre tinha compromissos inadiáveis
e eu fui ficando em segundo plano e acabou que ficamos um pouco desgastados um
com o outro. Não sei dizer bem se terminamos, ela disse que iria viajar pra
Ibiza e eu nem liguei, devo estar maluco, ou ser muito otário, não sei..
Na
manhã seguinte, Sérgio me esperava no hotel de Village street, com o heliporto
que me levaria do Kentucky para o lugar onde pegaríamos o jato da Columbia
pictures. Ele quis que a minha chegada ao Brasil fosse a mais discreta
possível, tão discreta que praticamente nenhum veículo de notícias ficasse
sabendo até a coletiva de imprensa que aconteceria no Rio de Janeiro, mas a
grande parte da minha estadia seria em uma cidade pequena do nordeste
brasileiro. Nesse meio tempo aproveitei para aprender um pouco sobre a cultura
local, meu português era inexistente, e nem adiantava arranhar o espanhol,
estava mesmo, como se diz, mais perdido que o Batman!
O
jato começou a levantar voo e eu pude avistar as primeiras casinhas e uma bela
vista de, eu acho, o que havia escrito no roteiro da viagem, o estado do
maranhão achei o nome bem engraçado,então decorei fácil. Uma enorme região
cercada de praia passou por mim e eu fiquei encantado. Então estaquei diante da
janela do avião. Um enorme deserto de areia branca se erguia diante da paisagem,
por um momento fiquei em dúvida se estava no Brasil mesmo ou se estava a
caminho do Saara, mas aí reparei que entre cada duna de areia havia umas
espécies de piscinas com águas muito azuis.
-
Sérgio, cara! Você tá de sacanagem comigo! Me levou pro Saara,aqui não é Brasil
coisa nenhuma! – zoei com ele
-
Meu caro, conheça os famosos lençóis maranhenses! – ele anunciou orgulhoso.
-
me diz uma coisa, já que eu vou ficar aqui e desfrutar dessa vida mansa que é o
Brasil em vez de estar trabalhando, oh, espera,esse é o meu trabalho! Seria
legal eu aprender um pouco de português, você não acha? – perguntei
-
Calma meu amigo! Não vamos deixar você na mão! Você vai se encontrar com a
roteirista do projeto, a senhorita Katleen para discutirem juntos sobre o
roteiro. A parte administrativa do filme acredita que, se atores e roteiristas
trabalharem em equipe é fundamental para o filme, e Katleen prometeu te ajudar
com as aulas de português
-
Nossa! Que legal! Nunca pensei em trabalhar assim com um roteirista, eles geralmente
não são muito receptivos, trabalham em locais separados né?
-
Pois é, Katleen é muito legal, você vai gostar dela! Ela disse que está vindo
de Fortaleza para cá e vai chegar aqui amanhã. Até lá, você fica livre pra
chegar e conhecer um pouco a cidade,está bem? – Sérgio apanhou as mochilas e
nos preparamos para aterrissar. O ponto onde o jato pousou era uma grande torre
empresarial que contrastava fortemente com as construções ao redor.
Fileiras
enormes de casarões históricos e ladeiras se alongavam ao redor da rua, algo me
era familiar, mas eu não conseguia dizer o que era.
Entrei
no carro da produtora, coloquei o boné sobre o rosto e óculos escuros, do jeito
que estava chamava o mínimo atenção possível, era necessário, já que o pessoal
do filme não queria que ninguém soubesse que eu já havia chegado ao país, não
sei se o plano iria funcionar por muito tempo..
Chegamos
ao hotel e eu fiquei mais uma vez de queixo caído! Tinha chegado no Brasil não
fazia nem uma hora e já tinha sido surpreendido desde a vista do avião! No alto
de uma ladeira que dava pra ver quase toda a cidade, havia uma construção de
vidro imponente com várias luzes e janelas, uma piscina e mini-bar, redes
espalhadas por um grande espaço, e um andar de cima com cobertura.
Subi
pela porta dos fundos. Meu quarto era um com a parte da cobertura. Depois soube
que a equipe de filmagem e a produtora haviam ocupado quase 100% dos quartos do
hotel. Pelo que foi dito a população local, era para um grande comício
político, coisa comum naquela época.
Despejei
a mala de roupas no armário e me sentei na cama. Olhei por um momento aquele
quarto tão ricamente decorado e simples ao mesmo tempo. Incrível como os
brasileiros dão seu toque pessoal a tudo o que fazem.
A
vista da janela dava para a praça principal, com alguns casarões no topo, mas
ao mesmo tempo não ficava a vista de ninguém, do lado esquerdo havia um
conjunto de ladeiras e algumas partes mais isoladas que eu ainda não conhecia
da cidade. Ao longe o mar azul a perder de vista. Uma jangada passava perto da
costa. Eu já adorava esse lugar.
A
noite caiu e eu ainda não havia saído da suíte. Pensei em pegar meu celular
para me distrair, mais aí eu poderia dar bandeira twittando alguma coisa, mas
não corria esse risco, afinal, twitter não é a minha praia!
Às
oito escutei uma batida na porta, era Sérgio que já havia se tornado meu amigo,
me contou que adorava esse lugar e tinha crescido aqui e conhecido a sua mulher
e tido dois filhos, ele pensava em comprar uma rede de hotéis aqui perto caso
se desse bem no emprego da produtora.
-
e aí cara! Já se instalou direitinho? Tudo certo? Me desculpa estar invadindo
assim seu quarto, mas é que a galera da equipe quer te conhecer, tem uns atores
brasileiros aí que querem trocar uma ideia contigo.
-
Sério? Então vamo nessa! Ei, mas você vai traduzir o que eu falo pra quem não
fala inglês ok? Não quero deixar ninguém encabulado, quero cumprimentar a todos
e ainda mais conhecer meus companheiros de elenco, quem são? – quis saber.
-
Bem, não sei se você conhece todos, mas lá embaixo tão o Wagner Moura e a Alice
Braga, minha nossa senhora! A Alice Braga.. que mulher! – Sérgio já estava se
empolgando. Dei risada e desci com ele para cumprimentar a equipe.
Todos
foram bastante simpáticos,conheci a enorme equipe técnica e de preparação e
todos foram realmente simpáticos. Me senti quase a nona maravilha do mundo, não
é a toa o que dizem nas pessoas brasileiras, realmente é verdade, me senti
inteiramente à vontade.
-
Estes são Carlos e Vítor, membros da equipe de edição e montagem – Sérgio me
apresentou dois rapazes quase da minha idade, muito morenos e usando trajes
parecidos de rappers. Já gostei deles imediatamente.
-
E aí Josh,tudo em cima? Me diz, o que tá achando da cidade cara? Olha.. você
não viu nada, a gente tem que te mostrar a noite maranhense de verdade!
Começamos
a conversar e eles contaram várias piadas que quase me mataram de rir, tinha
gostado daqueles caras. Depois da apresentação, estávamos no terraço do hotel
quando eles me convidaram para dar uma volta e conhecer o clima da cidade.
Achei que não tinha problema, porque eu tava usando meu casaco, meus óculos e
boné e, uma saída rápida não faria ninguém me reconhecer,aliás, já era tarde e
as ruas já estavam mais silenciosas. Passamos entre prédios e casas de muros
altos, eles comentaram um pouco sobre a vizinhança e as garotas daqui. Achei
aquilo muito engraçado, e ao mesmo tempo interessante, eram tão simples que
chegava a impressionar,o que não me impressionava naquela viagem?
Chegamos
a um pequeno bar onde um senhor muito moreno servia as bebidas, pelo tom,
parecia contar uma piada, pois todos riam bastante
-
Josh, vem cá, vem tomar uma bebida com a gente! Aposto que você nunca tomou
nossa cana heim? – Disse Carlos já pedindo uma dose e se juntando ao grupinho
-
Eu não sei, mas já tomei uma tal de cai.. caipi..
-CAIPIRINHA!
– Disseram os dois e caindo na gargalhada.
-
Caipirinha de gringo é bem fraquinha cara! Tem que conhecer a cana original! –
Vitor se sentou no banco e começou a partir limões e distribuí-los entre a
gente. Pediu para o barman mais uma dose da bebida, tinha um nome bem
chamativo, cachaça, que eu me esforçava pra falar.
As
bebidas vinham e vinham, comecei a ficar muito empolgado e a contar histórias,
ia me empolgando cada vez mais ia caindo na gargalhada. A bebida descia
queimando e era diferente de tudo o que já provei. Foi ficando tarde e os
clientes do bar indo embora, estávamos distraídos e mal notamos um grupo de
meninos entrando no bar, pareciam estar pedindo alguma coisa. Na conversa com
meus novos amigos nem reparei muito neles.
De
repente, senti um empurrão nas minhas costas e um garoto passar correndo como
se sua vida dependesse disso. Carlos e Vitor gritaram, pareciam estar xingando
em português. O menino correu desabalado para um morro próximo e se perdeu
naquela escuridão da noite levando minha carteira com meu celular dentro
-
Que safado! Não acredito! Josh! Aquele pivete filho da mãe levou sua carteira!
Vamos lá pegar ele! Olha, não se preocupe, vamos procurar uma viatura da
polícia e vamos atrás dele! – Carlos e Vitor se levantaram de um salto e saíram
correndo tentando achar policiais, na pressa de pegar o menino, me deixaram no
bar que praticamente estava vazio.
Meu
coração começou a bater muito rápido. Junto com a carteira estavam alguns
documentos meus,minha habilitação internacional e o meu celular. Não liguei pro
dinheiro que tinha, só me liguei que iriam saber em um segundo que eu estava no
Brasil e iria estragar todo o trabalho da equipe que batalhou para me ajudar a permanecer
anônimo, fora o conteúdo pessoal do meu celular. Xinguei baixinho enquanto
minha cabeça dava voltas e eu começava a me sentir muito estranho. A bebida
fazia efeito e uma orquestra de baterias batucava a minha cabeça.
O
velho que servia no balcão veio falar comigo em português, mas pra variar, eu
não entendia nada do que ele disse. Ele repetiu umas três vezes e pelo tom de
voz era uma ordem pra mim. Quando ele apontou para os portões percebi que ele
iria fechar o bar e tive que sair.
Fiquei
lá,parado, sozinho, quase duas da manhã em uma rua deserta em um lugar
totalmente desconhecido. Tive que rir da situação. A cachaça deixou tudo
anuviado e começou a tirar o meu equilíbrio enquanto eu me apoiava em um muro.
Quanto mais eu andava, mais sentia que ia cair. Terminei caindo em uma calçada
e deitei completamente imóvel olhando para o céu estrelado. Não conseguia mais
pensar, as coisas já não faziam mais sentido e iam fugindo com a consciência.
Foi
quando eu observei que alguém ia se aproximando, mas como estava escuro, não
dava para ver com nitidez, nem se eu quisesse. A melodiosa voz era de uma
mulher, primeiro ela falou algo com tom espantado,depois começou a rir. A
risada eram como o revoar de pássaros.