quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Capítulo 1 - A proposta



 A moto voava veloz por cima do asfalto, meus cabelos quase escapavam para fora do capacete a quase 100 quilômetros por hora.. sentia toda aquela adrenalina e meu corpo gritava por mais. Era só eu e aquela Harley- Davidson modelo 1950 e eu naquele asfalto no alto daquela colina com vista para o mar, me separando apenas pela aquela barra de proteção que parecia outra linha e quase me deixava tonto. A barra ia se alongando...se alongando.. até quase ficar do tamanho da pista e..
- JOSH RYAN HUTCHERSON! LEVANTA JÁ DESSA CAMA,JÁ É QUASE MEIO DIA E VOCÊ PROMETEU LEVAR SEU IRMÃO PARA O TREINO DE BASEBALL!!
Muito atordoado,me virei pra ver quem tinha gritado comigo quando imaginava que estava sozinho na pista,me deparei aos poucos com as paredes conhecidas do meu quarto e comecei a acordar. Me levantei feito um zumbi e fui até o banheiro. Um cara estranho me olhava do outro lado do espelho. Cabelos desgrenhados, olhos cheios de olheiras e expressão surpresa. Foram só 5 cervejas, mas parecia que eu tinha bebido o bar inteiro pelo meu estado.
Chegando na cozinha já senti o cheiro das panquecas preparadas por minha mãe e já me senti um pouco melhor, Connor já me esperava completamente pronto no seu uniforme de baseball. Abri a geladeira e tirei uma garrafa de suco sob os olhares reprovadores dos dois.
- já não era sem tempo! Iria dormir até que horas,cara? Por acaso a gente não tinha combinado? – disse Connor um pouco chateado
-Desculpa cara, bebi aquelas cervejas e ainda fiquei jogando wii na casa de uns amigos,tava muito cansado – murmurei tentando não me lembrar de todas aquelas danças ridículas que eu devo ter feito.
Minha mãe começou a servir as panquecas direto na travessa,enquanto procurava o pote de mel e retirava os pratos do armário comentou que alguém havia me ligado.
-Era um rapaz com um nome.. deixa eu ver.. serg.. Sérgio, acho que era esse. Disse que estava tentando falar com você,mas o celular tava desligado. Deve ter falado com seu agente, liga pra ele.
-vou ligar no caminho do treino, agora eu tenho um compromisso com esse monstrengo aqui,simbora! – falei agarrando as chaves do carro enquanto Connor colocava seu equipamento dentro do porta malas.
Deixei Connor lá com a rapaziada do baseball e fiquei brincando com um bastão e umas bolas esquecidas num canto quando meu agente me ligou, saquei o celular e atendi.
-Bom dia Josh! – ele disse naquela voz animada que usava sempre que acontecia alguma coisa muito boa. Estava precisando urgentemente falar com você! Eu sei que você está em casa de férias, mas o lado brasileiro da nossa produtora insistiu tanto em falar com você que eu não pude recusar,você sabe, negócios são negócios!
-Claro! Claro! Ei,você disse brasileiro? Eles quase não entram em contato, o que aconteceu? – perguntei meio cismado.
- Um agente do outro lado da produtora quer que você dê uma olhada em um roteiro que parece promissor, eu ainda não sei bem do que se trata, mas ele quer nos encontrar para discutir a proposta, eu disse que daria essa chance a ele.
- E quando é que ele quer nos ver?
- Ele está na cidade e quer saber se pode almoçar conosco no restaurante de Blue Springs amanhã para apresentar a proposta e o roteiro. E aí, vamos nessa? – ele perguntou
-Claro, te encontro que horas?
- Meio dia e trinta, esteja no foyer do restaurante que vamos recebê-lo.
- ok, obrigado Ryan
Eu estava começando a sentir aquela sensação crescente de ansiedade que sempre sentia quando embarcava em um novo projeto. Apesar de fazer pouco tempo que eu estava de férias, dependendo do projeto eu embarcaria de olhos fechados, esse era meu estilo.

Ao meio dia eu estava na frente do restaurante esperando Ryan chegar. Ao me ver, ele abriu um enorme sorriso. Ele era um irlandês careca e sorridente que trabalhava comigo há um ano. Quem o conhecia nem imaginava que ele era aquele ser brincalhão que no trabalho tinha que lidar com todas aquelas fãs mais eufóricas era aquele ser sisudo e mal-encarado que barrava e limitava as fotos. Se eu pudesse,tiraria foto com todas, mas aí eu seria capaz de passar umas cinco horas á fio imóvel como uma estátua,só para que elas realizassem seu sonho, mas ele sempre me lembrava dos milhares de compromissos que eu tinha que fazer.
- E aí Josh! Pensou que estava de férias e não ia me ver tão cedo heim? – disse ele apertando a minha mão.
- E aí cara, to curioso pra saber o que esse cara tá tramando, como é o nome dele mesmo? – perguntei curioso
- O nome dele é Sérgio Pontes, ele é brasileiro e tá representando a Columbia trystar brasileira com parceria da Globo filmes. Ele já deveria ter chegado, afinal, é ele que tá querendo te contratar, não é?
Dez minutos depois, um cara bem alto, vestido com uma jaqueta de couro e uma camiseta da seleção brasileira chegou apressado na sala do foyer se desculpando com todos da equipe pela demora.
- Me desculpe te ter feito esperar Josh! Você não sabe como é complicado me achar nessa cidade, minha mulher veio às pressas comigo e meus filhos estão todos no hotel, a produtora me mandou às pressas – disse ele com visível sotaque apertando minha mão – me chamo Sérgio Pontes.
- Muito Prazer! Ryan me falou sobre a sua proposta. Cara, to curioso pra saber o que te trouxe de tão longe só pra vir falar aqui comigo.
- Eu estou representando os roteiristas e o diretor Brasileiro Fernando Meirelles para te propor fazer um filme no Brasil. Você sabe alguma coisa sobre o Brasil? desculpa a pergunta.
- Bem, conheço o futebol brasileiro, eu mesmo sou fã da seleção brasileira, dos jogadores, sei que tem praias, mas fora a isso, devo te confessar que não conheço muita coisa não - confessei.
- Bem, vai ser perfeito! É uma grande oportunidade de termos um ator tão talentoso como você e apresentarmos pra você tudo o que o nosso país representa. Ele me entregou as páginas do roteiro e me entregou.

Corações do asfalto:
Um roteiro de Kathyleen Turner
Direção de Fernando Meilles
Em 1965, Harry Styles (Josh Hutcherson) um missionário voluntário da ONU viaja até o Brasil para descobrir sobre o seu passado e suas origens. Em meio a viagem, acaba encontrado a bela Justina, uma jovem enfermeira de espírito livre que batalha pra continuar os estudos e viajar pelo país. O período de ditadura do país acaba fazendo com que Harry descubra que seu pai é um poderoso militar que sequestra Justina por confundi-la com uma revolucionária, e ele realiza uma viagem ao redor dos quatro cantos do país para poder resgatá-la e se autoconhecer.

Senti uma pontada de empolgação. Não era qualquer roteiro não, o papel era interessante e me oferecia uma grande oportunidade de embarcar no desconhecido. Aquilo me fazia querer começar a trabalhar imediatamente, era como descobrir que está vivo, liberdade.
- E não é só isso não! – disse Sérgio visivelmente feliz com a minha reação positiva. Só pra você ir sentindo o gostinho do filme, eu te trouxe uma surpresa! Ele pegou a mochila e tirou um notebook – uma galerinha mandou um recado pra você.
No vídeo, reconheci famosos roteiristas comentando sobre o filme, um resgate de época da história do Brasil, passado uma parte nos Eua, que além de ser um filme histórico, era uma poderosa história de amor e descoberta. A próxima pessoa do vídeo me fez parar. Fernando Meirelles, o grande diretor brasileiro de Ensaio sobre a cegueira e Jardineiro Fiel em pessoa comentando sobre o roteiro e o desejo de me ter no elenco do filme. Não o conhecia pessoalmente, mas eu já havia assistido aqueles filmes e eu era fã declarado do seu trabalho.
As próximas imagens mostravam um pouco das locações do filme, pude notar o quanto o país era bonito, as pessoas eram receptivas e se mostravam em uma frequente alegria contagiosa. Fiquei bestificado com as praias, as palmeiras, as casas, os grandes mercados e a quantidade de gente nas cidades. Rio de janeiro, São Paulo apareceram como eram nos anos 60, os casarões de grandes cidades do nordeste e as manifestações culturais nas ruas.
Em uma dessas festas de rua, pessoas tocando um ritmo que eu nunca havia escutado, um ritmo contagiante, que me fazia batucar minhas pernas inquietas mesmo naquela sala de restaurante, aquilo era diferente e tão atraente que não pude descolar meus olhos da tela. Nisso eu vi uma garota usando uma longa saia colorida girando em um ritmo frenético, me fazendo girar junto com ela. Eu nunca vi uma garota tão linda, com seus cabelos pretos enormes voando ao redor de suas costas. Ela fazia gestos leves com os braços parecendo alcançar voo enquanto a multidão parava extasiada para olhar, seus olhos eram verdes e atrevidos, completamente hipnotizantes. Eu não conseguia parar de olhar.
-Muito bem Josh – disse Sérgio me assustando um pouco quando o vídeo terminou e eu permanecia olhando para a tela. Você promete que vai pensar na nossa proposta?
- Claro! Achei o roteiro maravilhoso! Estou encantado com o projeto, mas preciso de uns dias pra pensar e conversar com Ryan para acertar minha agenda,pode ser?
-Excelente, quero que você saiba que não lhe confiamos esse papel de propósito,sabemos do seu talento! Eu entrarei em contato assim que puder!
- Ótimo! Precisamos ir agora! Irei dar a minha resposta em breve – prometi
Saí do restaurante junto com Ryan, dirigi de volta pra casa, mas no caminho aquela cena continuava gravada na minha cabeça, aquela garota continuava a dançar aquela música contagiante. Se eu embarcasse nessa viagem para o Brasil com esse filme já seria uma sorte, mas se eu chegasse lá e encontrasse essa misteriosa garota, eu sentia que seria meu destino.

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