Letícia subiu as escadas rapidamente para pegar sua bolsa enquanto eu a esperava no hall de entrada. Próximo ao corredor, havia dois quartos, um quarto de hóspede e uma portinha com uma plaquinha de madeira,onde se lia “quarto da Jéssica”,estava entreaberta e pela brecha da porta havia algo que me despertou atenção e eu não pude ignorar, resolvi espiar e fui até a porta. Esse é um dos meus grandes defeitos, sou curioso demais.
Quando
abri a pequena porta,me deparei com a parede forrada com pôsteres e mais
pôsteres de jogos vorazes. Havia fotos da Jennifer como Katniss nas mais
diversas poses, e do lado esquerdo.. fotos minhas caracterizado de Peeta. E o
nome “Josh” escrito várias vezes de um lado e de outro. Uma pequena cama com
colcha colorida, mais bonecas de pano, e todos os objetos que haveria em um
tradicional quarto de uma garotinha adolescente. De repente a porta se abriu
bruscamente e Letícia entrou no quarto, tinha uma expressão de perplexidade
-Ai
meu Deus! Não era pra você ter visto todos estes pôsteres seus! – era a
primeira vez que eu via aquele rosto tão seguro de si corando. Tive que dar
risada
-
Ué, porque? Fico muito feliz em saber que ela gosta tanto assim de mim e do meu
trabalho! Onde sua irmã está? Queria conhecê-la
-Ai,não
sei, nunca imaginei que você pudesse estar aqui, parado olhando pra isso, é
muito surreal, você não tem noção! – ela acabou rindo também. Minha irmã foi
visitar nosso pai em outra cidade, ela só volta na semana que vem. Ela
provavelmente surtaria se te conhecesse.
-Acha
que ela contaria pra alguém que eu estou aqui?
-Bem,
eu não tenho certeza, Jéssica tem apenas 12 anos e é uma cabeçinha de vento,
ainda está na idade de querer contar tudo pras amigas, essas coisas de
pré-adolescente. Ela é assim,mas eu amo aquela pestinha!
-
Bem, vão anunciar que eu estou no Brasil em breve, o diretor está vindo fazer
uma coletiva de imprensa, em breve vão anunciar e todo mundo vai pirar quando
souber que eu estou aqui, segundo Sérgio, as fãs brasileiras são as mais
entusiasmadas
-É
elas são entusiasmadas mesmo – notei seu tom um pouco amargurado.
-Como
assim?
-
É sempre a mesma coisa – suspirou. Milhares de criaturas se esgoelando na porta
dos hotéis, desesperadas pelos seus “ídolos” – ela fez aspas com as mãos. Eles
mudam todo verão.
-E..
eu serei substituído no próximo verão? – me aproximei dela
-Hum..
provavelmente. – ela pensou, mas pareceu não ter certeza
Fui
me aproximando lentamente e procurei cercá-la, ela não hesitou, continuou
olhando nos meus olhos com firmeza.
-
E pra você, eu serei substituível?
Dizem
que eu sou sedutor quando quero, mas para mim acabo sendo mais uma imitação de
mini-galã meio ridícula. Não sei exatamente o que eu senti, agi por impulso,
pude ouvir a respiração hesitante dela. Aquilo apenas aguçava ainda mais a
minha vontade de estar tão perto dela. Ela baixou os olhos e respondeu quase
com um sussurro.
-Não..
você é mais do que..
-Do
que o quê? – ela estava bem próxima agora..
Não
pude saber o que era, alguém bateu na porta e quebrou o momento. Ela correu
para atender, a saia esvoaçando atrás. Ouvi alguém falar,mas não entedi,
provavelmente em português. Essas aulas de português precisam começar
imediatamente, pensei amargurado.
-Eu
não acredito! – exclamou ela feliz. A caravana de rua vem aí ladeira abaixo!
Vamos assistir eles passarem! São o bloco mais tradicional de São Luíz! Vem!
-Eu
não posso! Vou ser reconhecido! – disse chateado
-
Bobo! Esqueceu que eu faço parte de uma companhia de teatro? Tenho um baú
inteiro de fantasia no meu quarto, hum... topa se disfarçar pra cair na farra,
Sr. Josh Hutcherson? –disse daquele jeito faceiro me cortejando
-Mas
é claro! Não perderia isso por nada!
Ela
fuçou dentro do baú e achou uma roupa cheia de panos coloridos, e uma máscara
que ocultava bastante a minha aparência. A cara de um boneco engraçado chorando
com uma lágrima pendurada.. o que será que significava?
Paramos
um instante no hall de entrada e a música já começava a ecoar vindo do começo
da ladeira. Aos poucos, o que parecia o som de um batalhão se movendo depressa
nos alcançou e saímos de mãos dadas na multidão. As pessoas dançavam
entusiasmadas e não pareciam realmente me reconhecer, o que era ótimo. Por um
segundo, me passou pela cabeça que eu realmente fazia parte de tudo aquilo.
Havia uma emoção em tudo e eu reconhecia. Liberdade,simplesmente. Estar livre e
dançar ao som da música!
De
repente, o som de trompetes se sobrepôs à bagunça geral. Todos se afastaram e
uma roda de garotas se formou. Todos pararam para assistir. Letícia estava lá,
bem no meio da roda. Aquele mesmo som contagiante de tambores marcando o passo
e palmas da multidão fez as garotas girarem as saias. Era igual o que eu havia
visto no vídeo. Não me contive e comecei a bater palmas também. tudo era
extremamente hipnótico, porém, não havia multidão, não havia garotas ao redor,
apenas uma.
Letícia
voava em movimentos, sempre dançando de maneira sensual e hipnótica, ela
conseguiu me encontrar na multidão e olhava para mim, me chamando com seus
olhos, suave e depressa ao mesmo tempo. Não sei por quanto tempo fiquei
observando ela dançar na multidão.. observando.. observando...
De
repente ela veio na minha direção e me puxou para dentro da roda! Que garota
atrevida ela era! Tentei impedir, mas quando vi já estava junto com ela! Ela
pegou minhas mãos e começamos a girar, a girar, enquanto ríamos como se
estivéssemos malucos! Aquilo era bom demais!
O
bloco ia passando e algumas pessoas iam ficando para trás ou se afastando.
Olhei para o céu, que de repente começou a nublar.
-
Acho que é a primeira vez que vejo o céu brasileiro nublar,será que vai chover?
– perguntei
Não
logo falei isso, começou a cair uma neblina e aos poucos a chuva começou. As
pessoas que já estavam animadas, ficaram mais animadas ainda correndo na chuva
e pulando ao som da música.
Tínhamos
ficado um bom pedaço para trás, estávamos na metade da alameda azul, a chuva
caindo esfriando um pouco o clima tão quente.
-Nossa!
Deve ter acontecido algo muito especial pra chover! Esse não é o país de tanto
sol? – gracejei
-
você ainda não sabe né? – ela parou retirando a minha máscara, revelando meu
rosto todo molhado com pingos de chuva
-O
que eu não sei? – franzi as sobrancelhas
-
É que.. – ela começou a se aproximar novamente – você é coisa especial que
aconteceu.
Registrei
o momento em que ela passou a mão pelas minhas costas, senti o seu delicioso perfume e eu a puxei
para um beijo, o nosso primeiro beijo naquela tarde chuvosa e festiva do
Maranhão.
Nota: A dança da Letícia chama-se "Tambor de crioula" dá pra imaginar um pouco pela imagem: http://www.cartacapital.com.br/wp-content/uploads/2011/01/Tambor1x_edit.jpg
Fantasia do Josh: Pierrot
Fantasia do Josh: Pierrot
Nenhum comentário:
Postar um comentário