quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Capítulo 4 - Disfarce




Letícia subiu as escadas rapidamente para pegar sua bolsa enquanto eu a esperava no hall de entrada. Próximo ao corredor, havia dois quartos, um quarto de hóspede e uma portinha com uma plaquinha de madeira,onde se lia “quarto da Jéssica”,estava entreaberta e pela brecha da porta havia algo que me despertou atenção e eu não pude ignorar, resolvi espiar e fui até a porta. Esse é um dos meus grandes defeitos, sou curioso demais.
Quando abri a pequena porta,me deparei com a parede forrada com pôsteres e mais pôsteres de jogos vorazes. Havia fotos da Jennifer como Katniss nas mais diversas poses, e do lado esquerdo.. fotos minhas caracterizado de Peeta. E o nome “Josh” escrito várias vezes de um lado e de outro. Uma pequena cama com colcha colorida, mais bonecas de pano, e todos os objetos que haveria em um tradicional quarto de uma garotinha adolescente. De repente a porta se abriu bruscamente e Letícia entrou no quarto, tinha uma expressão de perplexidade
-Ai meu Deus! Não era pra você ter visto todos estes pôsteres seus! – era a primeira vez que eu via aquele rosto tão seguro de si corando. Tive que dar risada
- Ué, porque? Fico muito feliz em saber que ela gosta tanto assim de mim e do meu trabalho! Onde sua irmã está? Queria conhecê-la
-Ai,não sei, nunca imaginei que você pudesse estar aqui, parado olhando pra isso, é muito surreal, você não tem noção! – ela acabou rindo também. Minha irmã foi visitar nosso pai em outra cidade, ela só volta na semana que vem. Ela provavelmente surtaria se te conhecesse.
-Acha que ela contaria pra alguém que eu estou aqui?
-Bem, eu não tenho certeza, Jéssica tem apenas 12 anos e é uma cabeçinha de vento, ainda está na idade de querer contar tudo pras amigas, essas coisas de pré-adolescente. Ela é assim,mas eu amo aquela pestinha!

- Bem, vão anunciar que eu estou no Brasil em breve, o diretor está vindo fazer uma coletiva de imprensa, em breve vão anunciar e todo mundo vai pirar quando souber que eu estou aqui, segundo Sérgio, as fãs brasileiras são as mais entusiasmadas
-É elas são entusiasmadas mesmo – notei seu tom um pouco amargurado.
-Como assim?
- É sempre a mesma coisa – suspirou. Milhares de criaturas se esgoelando na porta dos hotéis, desesperadas pelos seus “ídolos” – ela fez aspas com as mãos. Eles mudam todo verão.
-E.. eu serei substituído no próximo verão? – me aproximei dela
-Hum.. provavelmente. – ela pensou, mas pareceu não ter certeza
Fui me aproximando lentamente e procurei cercá-la, ela não hesitou, continuou olhando nos meus olhos com firmeza.
- E pra você, eu serei substituível?
Dizem que eu sou sedutor quando quero, mas para mim acabo sendo mais uma imitação de mini-galã meio ridícula. Não sei exatamente o que eu senti, agi por impulso, pude ouvir a respiração hesitante dela. Aquilo apenas aguçava ainda mais a minha vontade de estar tão perto dela. Ela baixou os olhos e respondeu quase com um sussurro.
-Não.. você é mais do que..
-Do que o quê? – ela estava bem próxima agora..
Não pude saber o que era, alguém bateu na porta e quebrou o momento. Ela correu para atender, a saia esvoaçando atrás. Ouvi alguém falar,mas não entedi, provavelmente em português. Essas aulas de português precisam começar imediatamente, pensei amargurado.
-Eu não acredito! – exclamou ela feliz. A caravana de rua vem aí ladeira abaixo! Vamos assistir eles passarem! São o bloco mais tradicional de São Luíz! Vem!
-Eu não posso! Vou ser reconhecido! – disse chateado
- Bobo! Esqueceu que eu faço parte de uma companhia de teatro? Tenho um baú inteiro de fantasia no meu quarto, hum... topa se disfarçar pra cair na farra, Sr. Josh Hutcherson? –disse daquele jeito faceiro me cortejando
-Mas é claro! Não perderia isso por nada!
Ela fuçou dentro do baú e achou uma roupa cheia de panos coloridos, e uma máscara que ocultava bastante a minha aparência. A cara de um boneco engraçado chorando com uma lágrima pendurada.. o que será que significava?
Paramos um instante no hall de entrada e a música já começava a ecoar vindo do começo da ladeira. Aos poucos, o que parecia o som de um batalhão se movendo depressa nos alcançou e saímos de mãos dadas na multidão. As pessoas dançavam entusiasmadas e não pareciam realmente me reconhecer, o que era ótimo. Por um segundo, me passou pela cabeça que eu realmente fazia parte de tudo aquilo. Havia uma emoção em tudo e eu reconhecia. Liberdade,simplesmente. Estar livre e dançar ao som da música!
De repente, o som de trompetes se sobrepôs à bagunça geral. Todos se afastaram e uma roda de garotas se formou. Todos pararam para assistir. Letícia estava lá, bem no meio da roda. Aquele mesmo som contagiante de tambores marcando o passo e palmas da multidão fez as garotas girarem as saias. Era igual o que eu havia visto no vídeo. Não me contive e comecei a bater palmas também. tudo era extremamente hipnótico, porém, não havia multidão, não havia garotas ao redor, apenas uma.
Letícia voava em movimentos, sempre dançando de maneira sensual e hipnótica, ela conseguiu me encontrar na multidão e olhava para mim, me chamando com seus olhos, suave e depressa ao mesmo tempo. Não sei por quanto tempo fiquei observando ela dançar na multidão.. observando.. observando...
De repente ela veio na minha direção e me puxou para dentro da roda! Que garota atrevida ela era! Tentei impedir, mas quando vi já estava junto com ela! Ela pegou minhas mãos e começamos a girar, a girar, enquanto ríamos como se estivéssemos malucos! Aquilo era bom demais!
O bloco ia passando e algumas pessoas iam ficando para trás ou se afastando. Olhei para o céu, que de repente começou a nublar.
- Acho que é a primeira vez que vejo o céu brasileiro nublar,será que vai chover? – perguntei
Não logo falei isso, começou a cair uma neblina e aos poucos a chuva começou. As pessoas que já estavam animadas, ficaram mais animadas ainda correndo na chuva e pulando ao som da música.
Tínhamos ficado um bom pedaço para trás, estávamos na metade da alameda azul, a chuva caindo esfriando um pouco o clima tão quente.
-Nossa! Deve ter acontecido algo muito especial pra chover! Esse não é o país de tanto sol? – gracejei
- você ainda não sabe né? – ela parou retirando a minha máscara, revelando meu rosto todo molhado com pingos de chuva
-O que eu não sei? – franzi as sobrancelhas
- É que.. – ela começou a se aproximar novamente – você é coisa especial que aconteceu.
Registrei o momento em que ela passou a mão pelas minhas costas,  senti o seu delicioso perfume e eu a puxei para um beijo, o nosso primeiro beijo naquela tarde chuvosa e festiva do Maranhão.



Nota: A dança da Letícia chama-se "Tambor de crioula" dá pra imaginar um pouco pela imagem: http://www.cartacapital.com.br/wp-content/uploads/2011/01/Tambor1x_edit.jpg

Fantasia do Josh: Pierrot



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